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Minha pátria está morta

Vivo em minha mátria, a palavra

por Rose Ausländer

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Rose Ausländer nasceu em 1901, em Czernowitz, capital da Bucovina, então integrante do Império Austro-Húngaro, falecendo, aos 88 anos, em Düsseldorf, na Alemanha. Sua história foi marcada pela experiência do gueto e do holocausto, por sucessivos exílios e pela perda definitiva da pátria - Czernowitz e a parte norte da Bucovina foram incorporadas à União Soviética em 1946. 

No fim da guerra, retornou à Nova York, onde já vivera na década de 1920. Um ano depois, recebeu a notícia da morte de sua mãe. Ao retornar à poesia, após um longo período de trauma, escreve apenas em inglês. Só volta a escrever em alemão dez anos depois estimulada por Marianne Moore.

Com este retorno ao idioma alemão ocorre uma virada estilística. O modo tradicional de composição - com versos rimados e metrificados até então - dá lugar a poemas nos quais se percebe a influência de poetas como Marianne Moore, E. E. Cummings, William Carlos Williams e Wallace Stevens. Decisivo para a virada foi também o poeta Paul Celan, que ela conhecera em Czernowitz. É no domínio desse idioma renovado que Rose Ausländer tentará achar o caminho para a pátria e a mãe perdidas (moro em minha mátria / a palavra). Em alguns poemas, ela sempre está, a exemplo de seus antepassados, a caminho, sem qualquer garantia de que não chegará tarde demais, como em "Passado o Carnaval". Em outros, ela se identifica ora com personagens bíblicos alijados da pátria (como em "Réptil"), ora com aqueles que precisam salvar a vida com "palavras argutas" ("Pelos quatro ventos"). Outros poemas sugerem (como "Novo dia nova noite") a evasão para o mundo da infância, um mundo cuja lógica tem, em toda sua obra, uma afinidade essencial com a lógica da própria poesia. 

Simone Brantes

 

Terra mátria

Minha pátria está morta

eles a sepultaram

no fogo

 

Vivo em minha mátria

a palavra.

 

Passado o Carnaval

Passado o Carnaval vinham os dias magros

com pão ázimo e erva amarga

me vinha a fome da polpa de figo

me vinha a sede das laranjas

 

Com uma caravana eu seguia

pelo deserto à cata de tâmaras

A areia cravava-me no pescoço

o dorso do camelo

era meu país

As horas eram fornalhas ao redor da fronte

as constelações do Cruzeiro e de Escorpião

 

Pela manhã a Fata Morgana

florescia vermelha no horizonte

sem aproximar-se jamais

Por uma só vez um oásis nos acolheu

a água cheirava a fogo lua e papoula

figos e tâmaras já estavam secos demais

 

Ar

Sobre quantas asas

repousa o ar.

Pairar é penoso

o alto

não tem chão.

Miragem

um sonho na areia.

Nós plantamos palavras

no campo do ar

vamos

de palavra em palavra.

Em quantas asas

repousamos

seguindo adiante.

 

 

Novo dia nova noite

Chega

um novo dia

uma nova noite

 

Viajamos em navios

feitos de sonhos

para o dia

para a noite

 

Gritamos

olá querida lua

bom dia querido sol

boa noite querida noite

 

Presenteai-me com

vossos contos

de fada verdadeiros

Presenteai-me

com um novo dia

com uma nova noite.

 

Amor IV

Duas nuvens

se abraçam

logo irão

nos abraçar

 

Na floresta

um berço cresce

chamariz e resposta

 

As duas pombas

no átrio do templo

celebram bodas

 

O anel

encontrou um dedo

que não o deixa mais

 

Sob o baldaquim

o véu tem a

figura

de um melro

ele canta nos

lábios da noiva

 

As rosas colocam

seus punhais para dormir.

 

Ainda estás aqui

Atira tua angústia

no ar

 

Num átimo

teu tempo passa

num átimo

o céu cresce

sob o gramado

caem teus sonhos

nenhures

 

Ainda

recende o cravo

canta o tordo

ainda tens o direito de amar

ofertar palavras

ainda estás aqui

 

Sê o que és

Oferece o que tens

 

Pelos quatro ventos

Um dia fui

Sherazade

salvei minha vida

com palavras argutas

 

Hoje

não dirijo minhas palavras

a nenhum califa

eu as confio ao

meu espelho

ele as irradia

pelos quatro ventos.

 

 

Círculos

Outra vez um ano feito anel

surge na árvore

que se mantém quieta

e sem disso ter idéia

faz um círculo

com a terra

 

Também as criaturas

não percebem que circulam

e que os anos as cercam

em denso respirar

como a árvore.

 

Réptil
O tempo um réptil
me devorou

Não digerida eu fico
em seu corpo comprido
meio morta meio viva

Isso eu sonhei
quando dividi o cárcere
com José

Os dias magros jazem em
meu estômago

José está morto

Seu trigo armazenado
derrama-se
no Mar Morto

 

Os forasteiros

Trens trazem os forasteiros

que desembarcam 

e olham atordoados

Nos seus olhos nadam

angustiados peixes

Eles portam narizes estranhos

tristes lábios

 

Ninguém veio apanhá-los.

Eles esperam pelo crepúsculo

que não faz qualquer diferença

então têm permissão

para visitar seus parentes

na Via-Láctea

nos vales da lua

 

Um toca gaita -

melodias incomuns.

Uma outra escala

mora no instrumento

uma inaudível seqüência

de solidões.

 

Língua mátria

Eu fui em mim
tornando-me
de instante em instante

feita em pedaços
no caminho da palavra

Língua mátria
reúna minhas partes

mosaico humano

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