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Os piratas franceses querem conquistar o Parlamento

por Fernando Eichenberg

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militantes), conquistou a simpatia de 472 eleitores locais, o equivalente a 2,08% dos votos de seu distrito. "Não ganhei, mas tampouco foi um resultado ridículo", esclarece.

 Formado em engenharia da computação, Rouquet trabalha como programador em uma empresa de multimídia, cujo nome não revela: "Melhor não falar. Ninguém quer ser vinculado ao pp por medo de represálias." Ele diz que o nome do partido é uma provocação assumida: "Hoje, pirata é aquele que ouve música e por causa disso acaba na prisão. Se é assim, me orgulho de ser tratado de pirata." Rouquet relata a conversa recente que teve com um artista, que comparou o pp aos pintores que passaram a utilizar cores vivas em suas telas no início do século xx. "As pessoas viam aquilo e diziam: 'Mas vocês não são pintores, são fauves (feras selvagens).' E assim surgiu o fauvismo. Muitas vezes na história há pessoas que inovam e são tratadas com insultos. Hoje, para nós, manter esse nome é uma questão de brio."

Os piratas estão politicamente organizados em 33 países (no Brasil, pretendem lançar um candidato nas eleições de 2010). Atualmente, contam com dois deputados no Parlamento Europeu. O partido francês foi o segundo a se formar, em 2006, um ano depois dos pioneiros, na Suécia , que elegeram seu representante no último mês de junho, com 7,1% dos votos. A visibilidade provocada pela eleição do representante sueco e a primeira candidatura na França deram, segundo Rouquet, credibilidade ao movimento. "Acho que vamos ter mais aderentes", prevê, otimista.

Em sua caça às urnas, a bússola pirata se recusa a apontar rotas ideológicas. "O pp não é de direita, nem de esquerda nem de centro. Não queremos entrar nesse jogo tradicional de socialismo, capitalismo, liberalismo", explica Rouquet. A cartilha do partido tem um único princípio básico: a liberdade na internet. Os preceitos gerais pregam o "livre acesso à cultura e à informação, o respeito da vida privada e a refundação do código de propriedade intelectual". De forma resumida, o partido combate toda política que almeja criminalizar o download ilegal de músicas, filmes e outros arquivos na internet. Seu alvo mais recente, na França, foi a chamada Lei Hadopi, que aplica duras sanções à pirataria.

Fiel à ideologia libertária, Rouquet confessa baixar arquivos ilegais em seu computador. Não vê problemas na prática: "Baixo como todo mundo, mas gasto muito dinheiro em bens culturais. É limitador rotular alguém que faça isso como ladrão." Para demonstrar que nada tem contra compositores e intérpretes, lança uma comparação ao melhor estilo Lula (ele mesmo, aliás, uma espécie de garoto-propaganda da classe, por ter assistido, em 2007, a uma cópia pirata de Dois Filhos de Francisco durante viagem da comitiva brasileira a Moscou): "Artistas estão na mesma situação que os produtores de leite. Os dois são obrigados a passar por uma rede de distribuição que abocanha a maior parte do dinheiro."

Na práxis política, os noviços piratas já vivenciaram motins a bordo. Divergências na forma de agir causaram uma cisão e a criação do Partido Pirata Canal Histórico. Na sequência surgiu uma terceira sigla: o Partido Pirata Francês. Mas a tempestade passou, os ânimos se acalmaram e o partido voltou a ser único. Hoje, o pp francês possui cerca de 2 mil membros em sua página no Facebook e 500 inscritos em seu fórum de discussões. A cada duas semanas, se reúnem numa sala de bate-papo irc (Internet Relay Chat), um dos mais antigos protocolos de comunicação da internet. Já a direção do Partido Pirata Internacional (ppi), que agrupa todas as agremiações nacionais, se reúne virtualmente na primeira quinta-feira de cada mês.

Por enquanto, os corsários franceses desconhecem com quantos filiados poderão contar em seus próximos embates. Os resultados da recém-lançada campanha de adesão ainda não foram contabilizados. É só o que aguardam para preparar a estratégia nas eleições regionais de 2010. Embora não admita qual tenha sido seu voto para presidente, Rouquet entende que Nicolas Sarkozy poderia ser um bom cabo eleitoral para a causa - em agosto passado, o serviço de audiovisual do Palácio do Eliseu, sede do governo francês, providenciou 350 cópias de um documentário em dvd sobre o patrão, para distribuir na 17ª Conferência dos Embaixadores franceses. Eram todas ilegais.

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