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Troço bom pra chuchu

De como Eros e o empreendedorismo se deram as mãos e anunciaram um feliz Natal

por Clara Becker

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"Você é a Angélica?" A moça confirmou, meio sem jeito. "Prazer, Marcelo."

Quando ela chegou à praça de alimentação do shopping Ilha Plaza, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, carregava uma caixa de sapato. Marcelo já a esperava. Os dois nunca tinham se visto e, depois desse encontro, nunca mais se veriam. Ele, magro, baixo, 38 anos. Ela, loura, 30 anos, roupa de enfermeira. Apenas se cumprimentaram e foram direto para o estacionamento, olhando para a esquerda e a direita. Marcelo ficou do lado de fora do carro, para que ela pudesse examinar a mercadoria mais à vontade. Angélica pareceu gostar. Depois de escolher, pagou 60 reais e voltou para o trabalho, ela e sua caixa de sapato.

Marcelo então entrou no carro e fechou a mochila, dentro da qual guardava parte de seu patrimônio: alguns dos 250 membros de silicone modelo Peter King 08 que ele arrematara no leilão da 6ª Vara do Trabalho de Nova Iguaçu.
Professor de biologia da rede estadual, discreto e tímido, Marcelo enxergou a oportunidade ao folhear o jornal Extra na casa do sogro. Estava lá: um funcionário da fábrica Gaia Home Sex, demitido sem receber direitos trabalhistas, entrara com uma ação na Justiça do Trabalho, e agora parte dos bens inventariados do empregador iria à hasta pública para saldar a dívida com o ex-funcionário. O lance mínimo do lote era de 1 032,60 reais.

A Gaia Home Sex, sempre atenta à segmentação do mercado, oferecia pelo menos duas versões do produto: falos com e falos sem, digamos, o apêndice masculino responsável pela reprodução da espécie. Os sem eram em número de cem, com lance mínimo de 25,71 reais cada. Quem quisesse arrematar os da modalidade mais viril, uma centena também, desembolsaria 20 centavos a mais por unidade. Uma breve pesquisa mostrou a Marcelo que o produto alcançava até 80 reais nas melhores casas do ramo. Ele corria o mês com salário de magistério público. Não dava para passar.

No dia do leilão, saiu de casa, em Mangaratiba, disposto a pôr até 3 mil reais no lote de número 44. Levou junto a mulher, Jaqueline, que lembraria mais tarde: "Eu estava morrendo de vergonha, ri de nervoso o caminho inteiro."

O casal encontrou outras dezesseis pessoas na sala de leilões judiciais da Baixada Fluminense. Ambos se sentiam relativamente tranquilos. Não imaginavam que teriam concorrentes, opinião compartilhada pelo experiente leiloeiro Fabio Guimarães, que já vendera dentadura, saco de farinha e até um terreno minúsculo onde tudo o que havia era um buraco. "Quando eu perguntar 'Quem dá mais?'", ele comentou, "acho que o constrangimento vai impedir que as pessoas respondam."

Enganaram-se todos, pois uma gerente de sex shop se mostrou mais do que disposta a entrar na disputa. Durante longuíssimos três minutos e meio, ela e Marcelo competiram nos incrementos de 100 reais, alternando-se em levantar o mais discretamente possível o dedinho. O interesse pelo lote ficou tão denso que um senhor perguntou em voz alta: "Mas esses pênis são de verdade?" Desanuviou um pouco o recinto.

"Quem dá mais, 2 900 reais, quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Vendido para o cavalheiro de blusa branca à minha direita", proclamou o leiloeiro, sem pensar duas vezes antes de identificar o comprador. O maior desejo de Marcelo naquele momento era já ter emigrado para um país longínquo.

A agilidade da Justiça brasileira o obrigou a esperar mais de dois meses até tomar posse do que era seu. No mesmo dia em que saiu o mandado, passou lá na fábrica. O dono o esperava, e, bastante simpático, sugeriu que ele desse uma variada no cardápio. Assim, em vez de levar 200 geringonças do mesmo modelo, saiu de lá com 250 das mais diversas cores, tamanhos, calibres e velocidades de vibração. Para a Gaia Home Sex, era um modo de se desfazer do estoque, já que a empresa abrira mão de membros masculinos em favor de produtos eróticos mais lucrativos, como gel lubrificante que esquenta e calcinha comestível.

Com a ajuda de Jaqueline, Marcelo conseguiu que as suas onze caixas de papelão entrassem na Quantum do casal. E ia tudo bem, até toparem com uma blitz. Tentaram sorrir, fizeram cara de anjo, mas polícia nenhuma fica indiferente a tanta caixa. "O que tem aí dentro?", perguntou o guarda. "Piru", respondeu Marcelo. E, para não passar por mentiroso, mostrou o comprovante de compra.

A ideia original era comercializar o lote em sites como Mercado Livre e Balcão, mas a notícia se espalhou e aí começaram os telefonemas. "É engraçado", ele conta, "porque as pessoas sempre vêm falar comigo sussurrando: 'Tá com aquele negócio aí?'" Boa parte de sua vida se passa agora em estacionamentos escuros. É o herói dos com-vergonha de entrar em sex shop. Seus clientes, variadíssimos, ricos e pobres, incluem mulheres jovens como Angélica, senhoras decididas a provar que a vida não termina aos 70, homens que querem levar uma surpresinha para a esposa, a namorada ou o namorado e moças idem.

Em menos de um mês Marcelo recuperou os 2 900 reais investidos no leilão. Pelo que calculou numa planilha Excel, se tudo correr bem, deve lucrar perto de 7 mil reais. No embalo empreendedor, ele e Jaqueline já pensam em se expandir, talvez lançando rifas de cestas eróticas. E, desta vez, nada de sair às cotoveladas atrás de presentes natalinos. Os amigos do casal podem se preparar porque vem vaí um fim de ano sacudido.

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