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Alô, iniludível!

Projeto editorial ousado aproxima o leitor do fim

por Clarissa Barreto

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Dois velórios estavam em curso naquela manhã de terça-feira. No único crematório de Porto Alegre, sob a atmosfera de desalento, vozes baixas expressavam sentimentos contidos. Previsivelmente, a última coisa a passar pela cabeça dos presentes seria folhear uma revista – e no entanto, elas estavam ali, três exemplares na mesa da recepção, oferecendo-se gratuitamente a algum vivente que naquela hora sofresse também de tédio. Apropriados ao local e à ocasião, tratavam do assunto que arrastara todos àquele estabelecimento. Sim, exato: debatida, dissecada e exposta de ângulos variados, a Indesejada das gentes, no esplendor de seu triunfo lúgubre, ocupava todas as páginas do primeiro número da In Memoriam.

A revista jazia – era o caso de dizer – intocada à porta do crematório. Até o capelão, a quem os ossos do ofício impõem certa intimidade com a matéria, abriu mão de se atualizar, preferindo folhear a Bíblia enquanto esperava o momento de encomendar os mortos do dia. Pena, porque tanto ele como os entes queridos perderam uma preciosa dica de viagem: o roteiro de um passeio pelo Père Lachaise, o cemitério parisiense onde descansam, em meio a uma multidão de celebridades, Jim Morrison, Oscar Wilde, Proust, Balzac, Molière, Chopin, Edith Piaf e, para os que acreditam que ele não se encontra alhures, Allan Kardec.

Eles também não ficaram sabendo que a cremação “é um dos hábitos mais antigos da história da humanidade” (página 16), não aprenderam como se faz um inventário extrajudicial e não tiveram conhecimento do que respondeu o gaúcho Carlos Urbim – jornalista e autor de livros infantis nascido em 1948 –, ao ser confrontado com a seguinte questão: “O senhor simpatiza com o culto à memória das pessoas que já morreram?”

Apesar dos sinais em contrário daquela terça-feira, os 6 mil exemplares da In Memoriam, impressos em janeiro, estão se esgotando. Assim garante o idealizador e publisher da revista, o administrador e especialista em marketing José Elias Flores Jr., não por acaso diretor e herdeiro da Cortel, empresa que administra nove dos maiores cemitérios e crematórios do Rio Grande do Sul.

Flores Jr., que tem em seus arquivos 150 mil sepultados e 7 mil cremados, expõe alguns cálculos para demonstrar que a revista já nasceu sabendo o caminho: “Ela é distribuída nos saguões, na administração, na cafeteria e em alguns outros pontos do empreendimento. Se em cada sepultamento vão 50 pessoas, isso contando por baixo, com 70 cremações por mês já dá 7 mil pessoas” – na verdade, 3 500 – “se metade delas pegar um exemplar, vai faltar revista.”

Em seu escritório, que por essas coisas da vida fica na rua Natal, Flores Jr. conta que cogitou distribuir a In Memoriam além dos cemitérios, em cafés, lojas e “outros pontos culturais”, mas anteviu alguma resistência. “O nosso tema não é muito simpático”, lamenta. Ele não concebeu a revista por razões utilitárias ou mercantis. Seu desejo é provocar uma reflexão sobre a finitude. “Fizemos uma pesquisa e descobrimos que a pessoa está disposta a falar do assunto, por exemplo, quando morre o pai de um amigo. É aí que o assunto entra na vida das pessoas. Então, nessa hora em que elas vão ao empreendimento, pensamos em aproveitar para pensar sobre a coisa, mas não com uma abordagem publicitária.”

Como todo visionário que descobre um nicho de mercado, Flores Jr. jura de pé junto que no vasto mundo editorial brasileiro há lugar para uma revista sobre a morte. Há muito o que dizer, e sem encher linguiça: “Só na primeira reunião, tivemos quarenta ideias de pauta.” Ele mesmo não escreve, só propõe. A In Memoriam é redigida por um jornalista da empresa que faz a assessoria de imprensa da Cortel. O editor se orgulha particularmente da seção de frases, na qual os falecidos Mário Quintana, Mahatma Ghandi e Mark Twain, ao lado de Woody Allen, desfiam seus epigramas sobre a defunção.

“A gente tenta mostrar que o cemitério é mais do que um local onde se sepultam ou cremam os mortos”, diz Flores Jr., herdeiro também de um sobrenome que reforça sua credibilidade. “É um lugar de respeito, de tributo à vida das pessoas, de saudade, de homenagem, de história, conforto, amor, carinho e paz.”

Logo, não se trata apenas de morte, mas também de vida. É o que explica a presença de Carlos Urbim na In Memoriam, fato que muito espantou ao próprio. Foi uma escolha consciente do editor: “Colocamos o Urbim porque ele faz literatura infantil, e isso dava uma quebrada na coisa.” A matéria abordou a saudade, assunto em sintonia fina com a linha editorial da revista, só que meio ausente dos folguedos da infância. Talvez por isso a reportagem não tenha arrancado nada muito original de Urbim. Como meia humanidade, ele prefere pensar nos momentos de convívio com a pessoa partida, e param por aí as suas simpatias pelo culto às pessoas que já morreram. Aliás, em crítica involuntária a Flores Jr., o escritor deixa claríssimo que, de empreendimentos, o que ele quer é distância.

Vivo e com saúde até o fechamento desta edição, Urbim comentaria depois: “Achei tudo estranhíssimo. Nem imaginava o que seria uma revista sobre cemitérios.” Ninguém o censuraria pela ignorância, pois, até onde foi possível apurar, não existe outra publicação do gênero no país, quiçá nem nesta Terra. O ineditismo da In Memoriam de fato surpreende, visto pulularem nas bancas os periódicos especializados em unhas, cabelos, cães, bordados em ponto-cruz e 500 maneiras de enlouquecer um homem na cama, temas importantes, não se discute, mas tão menos pertinentes à condição humana.

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