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Apedrejando pôneis em baile

Maicon Douglas guarda na cabeça um dos maiores repertórios de canções de que se tem notícia – todas elas erradas

por Renato Terra

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Quando Maicon Douglas era pequeno, achava a vida muito chata, o que não era bom. Os dias se espichavam e ele ficava olhando para as paredes, até que uma tarde, entre um bocejo e outro, uma melodiazinha lhe bateu nos ouvidos, vinda de uma janela vizinha. Quando se deu conta, viu-se cantarolando os versos, o que melhorou substancialmente a sua existência. Dali em diante, não perdia ocasião de pegar de orelhada trechos de músicas que calhava de ouvir. Havia o frescor da descoberta. Nunca percebeu, porém, que o frescor maior residia na sua capacidade de inventar as letras, pois jamais conseguia guardar um só verso correto na memória.

Ao ouvir Erasmo Carlos cantar “Você precisa de um homem pra chamar de seu”, Maicon Douglas repetia que “Você precisa de um homem pra chamar Dirceu / Mesmo que seja eu, eu, eu, eu, eu.” Jamais se perguntou qual a razão de um fetiche tão específico. Se Erasmo desejava um Dirceu, Maicon não julgava.

Assim como o resto do planeta, Maicon Douglas trocava as bolas da mais famosa canção de Belchior: na sua boca, “Que ama o passado e que não vê” renascia como “É você que é malpassado e não vê, que o novo sempre veeeeeem”, corruptela que chegou a lhe render uns trocados ao ser adotada como jingle de uma churrascaria rodízio. Mas se fosse só isso, ele não teria se notabilizado tanto.

Certo dia, estirado numa rede e boquiaberto com a cor do sol, que estava mesmo uma beleza, Maicon Douglas teve o seu primeiro contato com a obra de Djavan. Nascia ali uma vocação. “Açaí, guardiã / zum de besouro, um ímã / branca é a tez da manhã” virou “Ao sair do avião / som de besouro, irmã / branca é a vez da manhã.” Já “Amar é um deserto e seus temores / Vida que vai na sela dessas dores” foi transformada em “Amarelo deserto e os três tenores / vida que vai Marcela nessas dores”, fato que lhe valeu uma pequena nota elogiosa de Haroldo de Campos na Folha de S.Paulo. Maicon não registrou o louvor, absorvido que estava pelas composições do vate alagoano. Julgou lindíssimo e misterioso o verso “Mais fácil aprender japonês em braile / Do que você decidir se dá ou não”, mas apenas porque o transformou em “Mais fácil apedrejar pôneis em baile / Do que...” etc. etc.

Nos dialetos de Jorge Ben Jor, Gilberto Gil e Caetano Veloso, Maicon Douglas, ainda que à revelia de sua volição, provou ser dotado do instinto de um verdadeiro linguista, pois onde outros só conseguiam enxergar a indistinção do caldo primevo da linguagem, ele encontrava sentido. O transcendentalismo holístico de Tempo rei, por exemplo, ganhou ares de jocosidade singela, transformando-se em Te empurrei. Maicon tampouco notou que, após o refrão “Não sei não / Assim você acaba me conquistando”, Jorge Ben Jor homenageava uma fã chamada Ive Brussel com os versos “Eu quero Ive Bru Brus-sel / Bru Brus-sel / Bru Brus-sel.” Destilada pelo seu filtro peculiar, a letra passou a dizer “Eu quero ir vivo pro céu / Pro pro céu / Pro pro céu.” As duas preposições contraídas foram tidas por especialistas como uma notável invenção sintática.

Maicon Douglas ficaria comovido em saber que o seu gosto musical fora esculpido desde cedo. Sua mãe o ninava com um doce “Atirei no Paulo Gato-to.” Paulo Gato era desafeto de Dona Chica, natural de Mirocecê – “Dona Chica-ca, de Miro-ce-cê...” Já meninote, rebolava ao som de “Ilarilarilariê-ô-ô-ô”, transmodificada em “Hilário, Hilário, Hilário, ê, ô-ô-ô” – versos que ele e sua mãe julgavam, de fato, hilariantes. Quando veio a adolescência, descobriu Cláudio Zoli nas festinhas. Sempre que ouvia “A noite vai ser boa / De tudo vai rolar”, limpava a garganta e se preparava para soltar a rima mais lasciva que conhecia. Esperava pelo refrão e, na hora certa, com um sorriso malicioso, punha os pulmões para fora: “Na madrugada vitrola rolando um blues / Trocando de biquíni sem parar.” Marcou época, triunfante. Estabeleceu-se.

Mesmo sem sacar nada de física, literatura ou gramática, Maicon passou no vestibular. Como a faculdade era particular, os fins de semana envolviam festas e churrascos pródigos em quantidade de gelo, cuba-libre, cerveja, funk e pagode. Se sóbrio já era difícil, embriagado, então, nem se fala, e Maicon Douglas quebrava espetacularmente a cara na hora de destrinchar a engenhosidade sincrética com que Claudinho e Buchecha misturavam a norma culta da língua portuguesa com as gírias da periferia carioca. E assim, por um golpe de mágica, “Tumultuado o palco quase caiu / Eu, desditoso, e você se distraiu” ressurgia como “Do muro alto talco quase caiu / Eudes Gostoso, você se distraiu”, versos que renderam, só na USP, cinco teses de doutorado. Maicon Douglas foi indicado ao prêmio Jabuti. Quase ganhou.

Se um erudito tivesse que apontar uma área em que Maicon se destacava de forma verdadeiramente excepcional, é provável que escolhesse a das músicas em inglês. Fonoaudiólogos sustentaram que ele chegou a articular fonemas sem ocorrência conhecida entre seres humanos. Sua irmã sugeriu que a Nasa o acompanhasse por duas semanas com o propósito de recolher as sílabas mais exóticas. Michael Jackson o tirava do sério. Não raro, vestia luvas brancas, chapéu panamá e calças de paetê para entrar no personagem. Fez isso, de surpresa, na festa de 15 anos de sua irmã Josélia Douglas. Beat It virou Pire – que ele cantava girando o dedo em volta da têmpora, num sutil convite ao desequilíbrio psiquiátrico. Billie Jean lhe parecia a marca de uma velha calça desbotada. I’ll Be There se tornava o libelo higiênico “Ao bidêêêêê”. No número mais aguardado, repetia a coreografia completa de Thriller. Tampando o ouvido direito com o indicador – para não desafinar, como dizia –, baritonava “Cães de vitrine / Vitrine barco”.

Problemas, Maicon teve apenas dois. O primeiro, com um amigo chamado Léo que, ao vê-lo numa roda de conhecidos cantando os versos “Léo é bi! Léo é bi!”, deu-lhe um tapa. Tudo se esclareceu mais tarde, quando Maicon, sangrando do nariz, explicou que estava apenas fazendo um cover dos Beatles. O segundo incidente pôs Maicon em choque com a Associação da Melhor Idade do Mandaqui, que o processou pela versão “Solta avós nas estradas” de Travessia. O juiz foi leniente, pois gostava de Milton Nascimento. 

Ano passado, num evento que reunia carros tunados – aqueles cuja aparelhagem de som emite acordes dissonantes pelos alto-falantes embutidos no porta-malas –, aconteceu um diálogo que mudou a vida de Maicon Douglas. Estava à toa pilotando o som do seu Voyage 87, quando uma loirinha lhe perguntou se apreciava as músicas de Raimundo Fagner, especialmente “Quitéria”. Segundo a moça, o pai gostava tanto da canção que resolvera batizá-la com o nome. Maicon franziu a testa, pensou por alguns segundos, e meneou a cabeça: não, não conhecia “Quitéria”. Aflita com a ignorância dele, Quitéria não emendou “Quem dera ser um peixe / Para em seu límpido aquário mergulhar”, mas “Quitéria tem um peixe / Para em seu líquido armário mergulhar”.

Dois meses depois, estavam casados.

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